sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

FESTAS FELIZES

Apesar da azáfama que quase me põe doida, continuo a adorar esta época do ano. 

GOSTO MESMO MUITO ...
... do brilho que as ruas adquirem com as luzes de Natal (este ano a crise embaciou um bocadinho o brilho),
... da árvore de Natal e dos presentes por baixo (que os miúdos vão apalpando para ver qual é o deles),
....da ansiedade das crianças em contagem decrescente até ao dia D, 
... do jantar de 24 com a família reunida (temos vindo a perder a companhia dos irmãos, que entretanto criaram a sua própria família e que têm de se ir repartindo... que falta nos fazem... mas compensamos o resto do ano), 
....do almoço de dia 25 com a família novamente reunida, 
... da excitação das crianças ao abrir as prendas... e até a animação dos adultos que fazem por disfarçar...
... de acreditar no Pai Natal (Tomás, não deixes que os teus irmãos te influenciem, ele existe e aterrou na nossa chaminé),
... das músicas de Natal,
... de tentarmos parar para pensar um bocadinho mais nos outros, sobretudo nos que mais precisam,

... da passagem de Ano, porque me dá ânimo para continuar a encarar o futuro com optimismo (apesar das dificuldades do dia-a-dia),
... e de manter a tradição, também nesta hora especial  (a meia noite de 31) e começar sempre o Novo Ano com os amigos que nos têm acompanhado religiosamente neste dia, sem excepção, nos últimos 15 anos.

FELIZ 2011!!!!!

Agora que me deu p'ra lamechice deixo aqui a minha música do momento:





sábado, 18 de dezembro de 2010

Uma musica especial para a época mais especial do ano

A versão Scala da música dos Radiohead primeiro estranha-se e depois entranha-se... ou então sou eu que estou sensível aos coros, por causa da minha filhota que agora deu em "menina do coro" da escola.



Menos apropriada para a ocasião, mas mais votadas pelos membros femininos desta casa, está esta versão dos Pretenders. Resolvi perguntar à Bitilicas o que é que ela achava porque eu tenho tendência para os eighties... mas afinal o que é bom não tem idade!!!



domingo, 31 de outubro de 2010

Corrida do Tejo - "A Corrida"


Esta é de facto a prova mais bonita, pelo percurso junto à marginal e mais bem organizada, onde se sente o verdadeiro espírito da corrida.



Em termos familiares, esta foi a prova do Pedro, que conseguiu deixar o tio para trás. Pela minha parte fica aqui a promessa: para o ano vou melhorar o meu tempo, que se encontra em lento declínio...

domingo, 26 de setembro de 2010

Afinal quantos quilometros é que eu fiz?

Acabaram-se as férias, o calor abrandou, é tempo de fazer alguma coisinha pelo físico!

O evento da estreia desta temporada: A Mini-maratona da Ponte Vasco da Gama, este ano ainda mais mini... pelo menos podiam ter avisado!!! 
Eu sabia que íamos começar mais próximo de Lisboa e que assim eliminavam as subidas da ponte, o que eu não sabia é que aprova tinha sido encurtada.

Ao 4º km estava eu a preparar-me mentalmente para ter de fazer outros tantos, a Ivete Sangalo nos meus ouvidos incentivava "Banda Eva! Castiga!" e quando dei conta já tinha passado a meta. O quê, é só isto??!!!

A prova foi curta e com muitas descidas, mas mesmo assim o meu filhote e meu irmão deram-me à vontade 15 minutos de avanço, com direito a queda e tudo. Ah pois é, o meu filhote espalhou-se ao comprido e o desnaturado do tio não deu por nada, com a música aos berros lá continuou o seu percurso ... quando tiver um filho tem de lhe por uma trela, senão estamos tramados cada vez que ele sair com ele à rua!!!


domingo, 22 de agosto de 2010

Geração rasca ... ou à rasca... ou sandwich... ou...

Em 1994,  a propósito da manifestação de alunos contra as propinas, um grupo de estudantes mostra o rabo à ministra da educação com a frase "Não pago" escrita nas respectivas bochechas.
Num editorial do Público, Vicente Jorge Silva chamou-lhe Geração Rasca. 

De lá para cá muitas outras etiquetas se têm atribuído a esta geração pós-25 de Abril. É inegável que os pais desta geração educaram os filhos num contexto muito diferente do que se vivia até então, daí que esta geração marque um ponto de viragem.

Encontrei por acaso este documentário, muito interessante, feito por jovens nascidos na década de 70. Um aspecto que me parece importante salientar é que os participantes deste documentário são na sua maioria filhos da classe média e média-alta, pais com formação académica e alguns deles participantes activos no pós-25 de Abril (não necessariamente na política), sendo portanto aqueles com maiores expectativas quanto ao futuro. 

Infelizmente, na maioria dos casos os jovens desta geração viram as suas expectativas defraudadas.


1ª Parte



Uma na Bravo Outra na Ditadura - parte 1/2 from Andre Valentim Almeida on Vimeo.


2ª Parte



Uma na Bravo Outra na Ditadura - parte 2/2 from Andre Valentim Almeida on Vimeo.

O que mais me entristece é que a probabilidade de um futuro brilhante não aumentou nas gerações seguintes, pelo contrário, mas a maioria dos nossos jovens cresce com a ideia de que tudo é fácil e que os bens materiais que os pais conquistaram são um dado adquirido para eles. Infelizmente não é assim e esse facilitismo reflecte-se no ensino e mais tarde no mercado de trabalho.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O Inferno a Norte

Estas férias que ontem terminaram ficam marcadas pela vaga de incêndios que presenciávamos e que infelizmente durou os 6 dias que estivemos no Gerês. 

Aos criminosos que provocam os incêndios, a maioria deles na expectativa de daí retirar algum proveito financeiro à custa da desgraça alheia, a sabedoria popular aplica-se: Oxalá gastem todo esse dinheiro na farmácia!

Deixo aqui uma pequena amostra do que presenciámos, sem nunca nos termos dirigido propositadamente a nenhum destes cenários. Pelo contrário, como estávamos de férias com as crianças a nossa intenção foi sempre afastá-los de qualquer perigo.

1. No caminho da Régua para Braga


2. Embora pareça o anoitecer, eram apenas 18h. O incêndio estava relativamente afastado (a cerca de 5 km). Estávamos junto ao rio e na água surgiam pedaços de madeira queimada e cinza. 


3. O fumo envolve-nos e o céu sempre cinzento, a qualquer hora do dia.


4. Na barragem de Caniçada, a paisagem é sempre sublime. Mas agora é também infinitamente triste. Dá ideia de que o que não ardeu ainda está para arder...


5. E para terminar, o regresso a casa. Incêndio em Aveiras, junto à A1.


Já que os incendiários não têm descanso nem consciência, pelo menos que o clima nos dê uma trégua!

domingo, 1 de agosto de 2010

A universalidade da música

Uma amiga de longa data enviou-me o link deste video por email. Adorei e por isso decidi partilhar.




Stand by me!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Retratos da humanidade

Ontem vi, por acaso - e ainda bem que as coisas boas por vezes vêem ao nosso encontro - uma reportagem na RTP2 que tinha a ver com o projecto http://www.6billionothers.org/.

O projecto consiste numa série de entrevistas feitas a diferentes pessoas, de diversos países e de diferentes estratos sociais, sobre temas como os seus receios, os seus sonhos, etc. O excerto que eu vi era sobre o significado da vida. 

Aqui fica a reportagem. Para os mais impacientes eu recomendo que vejam os entrevistados dos minutos 12:40; 17 e 21:40. Engraçado como inconscientemente eu escolhi dois cubanos, penso que terá a ver com o facto de a vida não lhes ser oferecida de bandeja, mas também pela afinidade cultural.




quinta-feira, 15 de julho de 2010

John Nash

O Público tem uma entrevista muito interessante ao Prémio Nobel da Economia, John Nash, um génio com um desequilíbrio psiquiátrico, capaz de desenvolver  um modelo matemático de equilíbrio na Teoria dos Jogos: o "Equilibrio de Nash".

A vida é feita de contradições!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Lá diz o ditado popular: Quem os meus filhos beija...

... minha boca adoça.

O povo é sábio e eu hoje recebi, em matéria de açúcar, qualquer coisa como uma lata de leite condensado (eu adorava isto em criança)!

Fui ao colégio dos meus filhos e embora a reunião fosse a propósito da inscrição do pequenote, o meu teenager foi tão elogiado pela directora que eu fiquei de voz embargada e queixo caído!!! E o melhor de tudo é que eu acho sinceramente que ela não exagerou...(tanta modéstia até enjoa....eheheh). O moçoilo é um bom aluno (confere), educado (certo), etc e tal... 

Resumindo este ano lectivo eu diria (e disse-lhe várias vezes): From almighty nerd to almost Honky Donkey... and back again!!!!!

Não falámos muito da Bitilicas porque ainda está no 3º ano e tem um longo caminho a percorrer, mas o cenário é idêntico!


O que eu concluo do actual sistema de ensino é que os maus alunos são levados ao colo, os alunos medianos safam-se sem grande esforço e os bons alunos têm um fardo bem pesado para transportar. Vejo muitos pais a criticar o ensino e/ou os professores, mas a acompanhar e a exigir muito pouco seus filhos (é muito mais fácil culpar os outros); vejo os cursos com maior saída profissional com médias de acesso cada vez mais elevadas e os lobbies das ordens profissionais (especialmente a Ordem dos Médicos) a funcionar em pleno.

Perante este cenário, não há outro remédio a não ser darmos o nosso melhor (pais e filhos). Foi isso que nós tentámos e conseguimos! P'ra Setembro há mais...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Matilde Rosa Araújo

Soube da morte da escritora através de uma reportagem fascinante que passou na RTP2 em sua homenagem. Tinha que ser na RTP2, aquele canal que pouca gente vê, porque se calhar também pouca gente lê... Quem quiser ver ou rever, esqueça!... porque pelos vistos também não merece destaque no site daquele canal de TV, o que é uma pena.

Uma breve recordação:

" Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender.
Não fiquem tristes por isso. Vejam como as flores nascem quase transparentes da terra, como as podemos olhar à luz do Sol, e morrem, para de novo nascerem.
Lembrem-se como de um ovo de um pássaro podem sair asas que voem tão alto em dias de Primavera.
E morrem, também, e todas as primaveras nascem de novo.
E, sobretudo, lembrem-se do coração de cada um de nós, desta força imensa.
E não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural que se não adia."


 in A Fita Vermelha


Ou ainda... 


"Sabiam - ai! todos sabemos! - que desde meninos temos um trabalho enorme a cumprir: tornarmos o corpo mais forte, o coração também.
Quem diz o coração diz aquilo que em nós é capaz de sentir tristeza ou alegria, a saudade, a amizade, o amor.
E os meninos sabiam isso.
Os meninos sabem tanto, tanto, e tanto têm sempre de apredner.
A comer, a andar, a falar, a ler, a escrever, a contar. Tanto, tanta coisa!
Um trabalho tão importante que não pode ser pago com dinheiro mas só com carinho, com alegria. O trabalho de se tornarem fortes de corpo e coração, de se tornarem bons "


in O Palhaço Verde

terça-feira, 29 de junho de 2010

O raio do muleque nasceu ensinado!

Ando eu a pregar aos meus rebentos que o sucesso corresponde a 80% de transpiração e 20% de inspiração... pois este artista é um "grande" artista e não me parece que tenha tido muitos meses de prática!!!...


Quando as minhas crianças tinham esta idade quem dançava kuduro era eu, a correr de um lado para o outro para satisfazer as necessidades dos petizes.... Há uma altura em que eu penso que o coitado se vai estatelar e cair da mesa da cozinha, mas o dançarino tem perfeita noção do espaço e do ritmo!

domingo, 20 de junho de 2010

Homenagem a José Saramago

Faleceu um dos grandes nomes da nossa literatura. Li várias das suas obras, das quais destaco o Memorial do Convento e a Jangada de Pedra. Mais do que a pessoa, realço o escritor e em sua homenagem deixo aqui o seu discurso na recepção do Nobel da Literatura:

O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animalzinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algunas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira." Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?" Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tijela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava : "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quanto o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não podería significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolaçao da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.

Muitos anos depois, escrevendo pela primeira vez sobre este meu avô Jerónimo e e esta minha avó Josefa (faltou-me dizer que ela tinha sido, no dizer de quantos a conheceram quando rapariga, de uma formosura invulgar), tive consciência de que estava a transformar as pessoas comuns que eles haviam sido em personagens literárias e que essa era, provavelmente, a maneira de não os esquecer, desenhando e tornando a desenhar os seus rostos com o lápis sempre cambiante da recordação, colorindo e iluminando a monotonia de um quotidiano baço e sem horizontes, como quem vai recriando, por cima do instável mapa da memória, a irrealidade sobrenatural do país em que decidiu passar a viver. A mesma atitude de espírito que, depois de haver evocado a fascinante e enigmática figura de um certo bisavô berbere, me levaria a descrever mais ou menos nestes termos um velho retrato (hoje já com quase oitenta anos) onde os meus pais aparecem: "Estão os dois de pé, belos e jovens, de frente para o fotógrafo, mostrando no rosto uma expressão de solene gravidade que é talvez temor diante da câmara, no instante em que a objectiva vai fixar, de um e do outro, a imagem que nunca mais tornarão a ter, porque o dia seguinte será implacavelmente outro dia... Minha mãe apoia o cotovelo direito numa alta coluna e segura na mão esquerda, caída ao longo do corpo, uma flor. Meu pai passa o braço por trás das costas de minha mãe e a sua mão calosa aparece sobre o ombro dela como uma asa. Ambos pisam acanhados um tapete de ramagens. A tela que serve de fundo postiço ao retrato mostra umas difusas e incongruentes arquitecturas neoclássicas". E terminava: "Um dia tinha de chegar em que contaria estas coisas. Nada disto tem importância, a não ser para mim. Um avô berbere, vindo do Norte de Àfrica, um outro avô pastor de porcos, uma avó maravilhosamente bela, uns pais graves e formosos, uma flor num retrato - que outra genealogia pode importar-me? a que melhor árvore me encostaria?"

Escrevi estas palavras há quase trinta anos, sem outra intenção que não fosse reconstituir e registar instantes da vida das pessoas que me geraram e que mais perto de mim estiveram, pensando que nada mais precisaria de explicar para que se soubesse de onde venho e de que materiais se fez a pessoa que comecei por ser e esta em que pouco a pouco me vim tornando. Afinal, estava enganado, a biologia não determina tudo, e, quanto à genética, muito misteriosos deverão ter sido os seus caminhos para terem dado uma volta tão larga... À minha árvore genealógica (perdôe-se-me a presunção de a designar assim, sendo tão minguada a substância da sua seiva) não faltavam apenas alguns daqueles ramos que o tempo e os sucessivos encontros da vida vão fazendo romper do tronco central, também lhe faltava quem ajudasse as suas raízes a penetrar até às camadas subterrâneas mais fundas, quem apurasse a consistência e o sabor dos seus frutos, quem ampliasse e robustecesse a sua copa para fazer dela abrigo de aves migrantes e amparo de ninhos. Ao pintar os meus pais e os meus avós com tintas de literatura, transformando-os, de simples pessoas de carne e osso que haviam sido, em personagens novamente e de outro modo construtoras da minha vida, estava, sem o perceber, a traçar o caminho por onde as personagens que viesse a inventar, as outras, as efectivamente literárias, iriam fabricar e trazer-me os materiais e as ferramentas que, finalmente, no bom e no menos bom, no bastante e no insuficiente, no ganho e no perdido, naquilo que é defeito mas também naquilo é excesso, acabariam por fazer de mim a pessoa em que hoje me reconheço: criador dessas personagens, mas, ao mesmo tempo, criatura delas. Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de promessa não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha chegado a ser.

Agora sou capaz de ver com clareza quem foram os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver, essas dezenas de personagens de romance e de teatro que neste momento vejo desfilar diante dos meus olhos, esses homens e essas mulheres feitos de papel e de tinta, essa gente que eu acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências de narrador e obedecendo à minha vontade de autor, como títeres articulados cujas acções não pudessem ter mais efeito em mim que o peso suportado e a tensão dos fios com que os movia. Desses mestres, o primeiro foi, sem dúvida, um medíocre pintor de retratos que designei simplesmente pela letra H., protagonista de uma história a que creio razoável chamar de dupla iniciação (a dele, mas também, de algum modo, do autor do livro), intitulada Manual de Pintura e Caligrafia, que me ensinou a honradez elementar de reconhecer e acatar, sem ressentimento nem frustração, os meus próprios limites: não podendo nem ambicionando aventurar-me para além do meu pequeno terreno de cultivo, restava-me a possibilidade de escavar para o fundo, para baixo, na direcção das raízes. As minhas, mas também as do mundo, se podia permitir-me uma ambição tão desmedida. Não me compete a mim, claro está, avaliar o mérito do resultado dos esforços feitos, mas creio ser hoje patente que todo o meu trabalho, de aí para diante, obedeceu a esse propósito e a esse princípio.

Vieram depois os homens e as mulheres do Alentejo, aquela mesma irmandade de condenados da terra a que pertenceram o meu avô Jerónimo e a minha avó Josefa, componeses rudes obrigados a alugar a força dos braços a troco de um salário e de condições de trabalho que só mereceriam o nome de infames, cobrando por menos que nada a vida a que os seres cultos e civilizados que nos prezamos de ser apreciamos chamar, segundo as ocasiões, preciosa, sagrada ou sublime. Gente popular que conheci, enganada por uma Igreja tão cúmplice como beneficiária do poder do Estado e dos terratenentes latifundistas, gente permanentemente vigiada pela polícia, gente, quantas e quantas vezes, vítima inocente das arbitrariedades de uma justiça falsa. Três gerações de uma família de componeses, os Mau-Tempo, desde o começo do século até à Revolução de Abril de 1974 que derrubou a ditadura, passam nesse romance a que dei o título de Levantado do Chão, e foi com tais homens e mulheres do chão levantados, pessoas reais primeiro, figuras de ficção depois, que aprendi a ser paciente, a confiar e a entregar-me ao tempo, a esse tempo que simultaneamente nos vai construindo e destruindo para de novo nos construir e outra vez nos destruir. Só não tenho a certeza de haver assimilado de maneira satisfatória aquilo que a dureza das experiências tornou virtude nessas mulheres e nesses homens: uma atitude naturalmente estóica perante a vida. Tendo em conta, porém, que a liçao recebida, passados mais de vinte anos, ainda permanece intacta na minha memória, que todos os dias a sinto presente no meu espírito como uma insistente convocatória, não perdi, até agora, a esperança de me vir a tornar um pouco mais merecedor da grandeza dos exemplos de dignidade que me foram propostos na imensidão das planícies do Alentejo. O tempo o dirá.

Que outras lições poderia eu receber de um português que viveu no século XVI, que compôs as Rimas e as glórias, os naufrágios e os desencantos pátrios de Os Lusíadas, que foi um génio poético absoluto, o maior da nossa Literatura, por muito que isso pese a Fernando Pessoa, que a si mesmo se proclamou como o Super-Camões dela? Nenhuma lição que estivesse à minha medida, nenhuma lição que eu fosse capaz de aprender, salvo a mais simples que-me poderia ser oferecida pelo homem Luís Vaz de Camões na sua estreme humanidade, por exemplo, a humildade orgulhosa de um autor que vai chamando a todas as portas à procura de quem esteja disposto a publicar-lhe o livro que escreveu, sofrendo por isso o desprezo dos ignorantes de sangue e de casta, a indiferença desdenhosa de um rei e da sua companhia de poderosos, o escárnio com que desde sempre o mundo tem recebido a visita dos poetas, dos visionários e dos loucos. Ao menos uma vez na vida, todos os autores tiveram ou terão de ser Luís de Camões, mesmo se não escreveram as redondilhas de Sôbolos rios... Entre fidalgos da corte e censcores do Santo Ofício, entre os amores de antanho e as desilusões da velhice prematura, entre a dor de escrever e a alegria de ter escrito, foi a este homem doente que regressa pobre da Índia, aonde muitos só iam para enriquecer, foi a este soldado cego de um olho e golpeado na alma, foi a este sedutor sem fortuna que não voltará nunca mais a perturbar os sentidos das damas do paço, que eu pus a viver no palco da peça de teatro chamada Que farei com este livro?, em cujo final ecoa uma outra pergunta, aquela que importa verdadeiramente, aquela que nunca saberemos se alguma vez chegará a ter resposta suficiente: "Que fareis com este livro?" Humildade orgulhosa, foi essa de levar debaixo do braço uma obra-prima e ver-se injustamente enjeitado pelo mundo. Humildade orgulhosa também, e obstinada, estar de querer saber para que irão servir amanhã os livros que andamos a escrever hoje, e logo duvidar que consigam perdurar longamente (até quando?) as razões tranquilizadoras que acaso nos estejam a ser dadas ou que estejamos a dar a nós próprios. Ninguém melhor se engana que quando consente que o enganem os outros...

Aproximam-se agora um homem que deixou a mão esquerda na guerra e uma mulher que veio ao mundo com o misterioso poder de ver o que há por trás da pele das pessoas. Ele chama-se Baltasar Mateus e tem a alcunha de Sete-Sóis, a ela conhecem-na pelo nome de Blimunda, e também pelo apodo de Sete-Luas que lhe foi acrescentado depois, porque está escrito que onde haja um sol terá de haver uma lua, e que só a presença conjunta e harmoniosa de um e do outro tornará habitável, pelo amor, a terra. Aproxima-se também um padre jesuíta chamado Bartolomeu que inventou uma máquina capaz de subir ao céu e voar sem outro combustível que não seja a vontade humana, essa que, segundo se vem dizendo, tudo pode, mas que não pôde, ou não soube, ou não quis, até hoje, ser o sol e a lua da simples bondade ou do ainda mais simples respeito. São três loucos portugueses do século XVIII, num tempo e num país onde floresceram as superstições e as fogueiras da Inquisição, onde a vaidade e a megalomania de um rei fizeram erguer um convento, um palácio e uma basílica que haveriam de assombrar o mundo exterior, no caso pouco provável de esse mundo ter olhos bastantes para ver Portugal, tal como sabemos que os tinha Blimunda para ver o que escondido estava... E também se aproxima uma multidão de milhares e milhares de homens com as mãos sujas e calosas, com o corpo exausto de haver levantado, durante anos a fio, pedra a pedra, os muros implacáveis do convento, as salas enormes do palácio, as colunas e as pilastras, as aéreas torres sineiras, a cúpula da basílica suspensa sobre o vazio. Os sons que estamos a ouvir são do cravo de Domenico Scarlatti, que não sabe se deve rir ou chorar... Esta é a história de Memorial do Convento, um livro em que o aprendiz de autor, graças ao que lhe vinha sendo ensinado desde o antigo tempo dos seus avós Jerónimo e Josefa, já conseguiu escrever palavras como estas, donde não está ausente alguma poesia: "Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem um coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu". Que assim seja.

De lições de poesia sabia já alguma coisa o adolescente, aprendidas nos seus livros de texto quando, numa escola de ensino profissional de Lisboa, andava a preparar-se para o ofício que exerceu no começo da sua vida de trabalho: o de serralheiro mecânico. Teve também bons mestres da arte poética nas longas horas nocturnas que passou em bibliotecas públicas, lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem alguém que o aconselhasse, com o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre. Mas foi na biblioteca da escola industrial que O Ano da Morte de Ricardo Reis começou a ser escrito... Ali encontrou um dia o jovem aprendiz de serralheiro (teria então 17 anos) uma revista - "Atena" era o título - em que havia poemas assinados com aquele nome e, naturalmente, sendo tão mau conhecedor da cartografia literária do seu país, pensou que existia em Portugal um poeta que se chamava assim: Ricardo Reis. Não tardou muito tempo, porém, a saber que o poeta propriamente dito tinha sido um tal Fernando Nogueira Pessoa que assinava poemas com nomes de poetas inexistentes nascidos na sua cabeça e a que chamava heterónimos, palavra que não constava dos dicionários da época, por isso custou tanto trabalho ao aprendiz de letras saber o que ela significava. Aprendeu de cor muitos poemas de Ricardo Reis ("Para ser grande sê inteiro/Põe quanto és no mínimo que fazes"), mas não podia resignar-se, apesar de tão novo e ignorante, que um espírito superior tivesse podido conceber, sem remorso, este verso cruel: "Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo". Muito, muito tempo depois, o aprendiz, já de cabelos brancos e um pouco mais sábio das suas próprias sabedorias, atreveu-se a escrever um romance para mostrar ao poeta das Odes alguma coisa do que era o espectáculo do mundo nesse ano de 1936 em que o tinha posto a viver os seus últimos dias: a ocupaçao da Renânia pelo exército nazista, a guerra de Franco contra a República espanhola, a criação por Salazar das milícias fascistas portuguesas. Foi como se estivesse a dizer-lhe: "Eis o espectáculo do mundo, meu poeta das amarguras serenas e do cepticismo elegante. Disfruta, goza, contempla, já que estar sentado é a tua sabedoria...".

O Ano da Morte de Ricardo Reis terminava com umas palavras melancólicas: "Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera". Portanto, não haveria mais descobrimentos para Portugal, apenas como destino uma espera infinita de futuros nem ao menos imagináveis: só o fado do costume, a saudade de sempre, e pouco mais... Foi então que o aprendiz imaginou que talvez houvesse ainda uma maneira de tornar a lançar os barcos à água, por exemplo, mover a própria terra e pô-la a navegar pelo mar fora. Fruto imediato do ressentimento colectivo português pelos desdéns históricos de Europa (mais exacto seria dizer fruto de um meu ressentimento pessoal...), o romance que então escrevi - A Jangada de Pedra - separou do continente europeu toda a Península Ibérica para a transformar numa grande ilha flutuante, movendo-se sem remos, nem velas, nem hélices em direcção ao Sul do mundo, "massa de pedra e terra, coberta de cidades, aldeias, rios, bosques, fábricas, matos bravios, campos cultivados, com a sua gente e os seus animais", a caminho de uma utopia nova: o encontro cultural dos povos peninsulares com os povos do outro lado do Atlântico, desafiando assim, a tanto a minha estratégia se atreveu, o domínio sufocante que os Estados Unidos da América do Norte vêm exercendo naquelas paragens... Uma visão duas vezes utópica entenderia esta ficção política como uma metáfora muito mais generosa e humana: que a Europa, toda ela, deverá deslocar-se para o Sul, a fim de, em desconto dos seus abusos colonialistas antigos e modernos, ajudar a equilibrar o mundo. Isto é, Europa finalmente como ética. As personagens da Jangada de Pedra - duas mulheres, três homens e um cão - viajam incansavelmente através da península enquanto ela vai sulcando o oceano. O mundo está a mudar e eles sabem que devem procurar em si mesmos as pessoas novas em que irão tornar-se (sem esquecer o cão, que não é um cão como os outros...). Isso lhes basta.

Lembrou-se então o aprendiz de que em tempos da sua vida havia feito algumas revisões de provas de livros e que se na Jangada de Pedra tinha, por assim dizer, revisado o futuro, não estaria mal que revisasse agora o passado, inventando um romance que se chamaria História do Cerco de Lisboa, no qual um revisor, revendo um livro do mesmo título, mas de História, e cansado de ver como a dita História cada vez é menos capaz de surpreender, decide pôr no lugar de um "sim" um "não", subvertendo a autoridade das"verdades históricas". Raimundo Silva, assim se chama o revisor, é um homem simples, vulgar, que só se distingue da maioria por acreditar que todas as coisas têm o seu lado visível e o seu lado invisível e que não saberemos nada delas enquanto não lhes tivermos dado a volta completa. De isso precisamente se trata numa conversa que ele tem com o historiador. Assim: "Recordo-lhe que os revisores já viram muito de literatura e vida, O meu livro, recordo-lho eu, é de história, Não sendo propósito meu apontar outras contradições, senhor doutor, em minha opinião tudo quanto não for vida é literatura, A história também. A história sobretudo, sem querer ofender, E a pintura, e a música, A música anda a resistir desde que nasceu, ora vai, ora vem, quer livrar-se da palavra, suponho que por inveja, mas regressa sempre à obediência, E a pintura, Ora, a pintura não é mais do que literatura feita com pincéis, Espero que não esteja esquecido de que a humanidade começou a pintar muito antes de saber escrever, Conhece o rifão, se não tens cão caça com o gato, ou, por outras palavras, quem não pode escrever, pinta, ou desenha, é o que fazem as crianças, O que você quer dizer, por outras palavras, é que a literatura já existia antes de ter nascido, Sim senhor, como o homem, por outras palavras, antes de o ser já o era, Quer-me parecer que você errou a vocação, devia era ser historiador, Falta-me o preparo, senhor doutor, que pode um simples homem fazer sem o preparo, muita sorte já foi ter vindo ao mundo com a genética arrumada, mas, por assim dizer, em estado bruto, e depois não mais polimento que primeiras letras que ficaram únicas, Podia apresentar-se como autodidacta, produto do seu próprio e digno esforço, não é vergonha nenhuma, antigamente a sociedade tinha orgulho nos seus autodidactas, isso acabou, veio o desenvolvimento e acabou, os autodidactas são vistos com maus olhos, só os que escrevem versos e histórias para distrair é que estão autorizados a ser autodidactas, mas eu para a criação literária nunca tive jeito, Então, meta-se a filósofo, O senhor doutor é um humorista, cultiva a ironia, chego a perguntar-me como se dedicou à história, sendo ela tão grave e profunda ciência, Sou irónico apenas na vida real, Bem me queria a mim parecer que a história não é a vida real, literatura, sim, e nada mais, Mas a história foi vida real no tempo em que ainda não se lhe poderia chamar história, Então o senhor doutor acha que a história e a vida real, Acho, sim, Que a história foi vida real, quero dizer, Não tenho a menor dúvida, Que seria de nós se o deleatur que tudo apaga não existisse, suspirou o revisor". Escusado será acrescentar que o aprendiz aprendeu com Raimundo Silva a lição da dúvida. Já não era sem tempo.

Ora, foi provavelmente esta aprendizagem da dúvida que o levou, dois anos mais tarde, a escrever O Evangelho segundo Jesus Cristo. É certo, e ele tem-no dito, que as palavras do título lhe surgiram por efeito de uma ilusão de óptica, mas é legítimo interrogar-nos se não teria sido o sereno exemplo do revisor o que, nesse meio tempo, lhe andou a preparar o terreno de onde haveria de brotar o novo romance. Desta vez não se tratava de olhar por trás das páginas do Novo Testamento à procura de contrários, mas sim de iluminar com uma luz rasante a superfície delas, como se faz a uma pintura, de modo a fazer-lhe ressaltar os relevos, os sinais de passagem, a obscuridade das depressões. Foi assim que o aprendiz, agora rodeado de personagens evangélicas, leu, como se fosse a primeira vez, a descrição da matança dos Inocentes, e, tendo lido, não compreendeu. Não compreendeu que já pudesse haver mártires numa religião que ainda teria de esperar trinta anos para que o seu fundador pronunciasse a primeira palavra dela, não compreendeu que não tivesse salvado a vida das crianças de Belém precisamente a única pessoa que o poderia ter feito, não compreendeu a ausência, em José, de um sentimento mínimo de responsabilidade, de remorso, de culpa, ou sequer de curiosidade, depois de voltar do Egipto com a família. Nem se poderá argumentar, em defesa da causa, que foi necessário que as crianças de Belém morressem para que pudesse salvar-se a vida de Jesus: o simples senso comum, que a todas as coisas, tanto às humanas como às divinas, deveria presidir, aí está para nos recordar que Deus não enviaria o seu Filho à terra, de mais a mais com o encargo de redimir os pecados da humanidade, para que ele viesse a morrer aos dois anos de idade degolado por um soldado de Herodes... Nesse Evangelho, escrito pelo aprendiz com o respeito que merecem os grandes dramas, José será consciente da sua culpa, aceitará o remorso em castigo da falta que cometeu e deixar-se-á levar à morte quase sem resistência, como se isso lhe faltasse ainda para liquidar as suas contas com o mundo. O Evangelho do aprendiz não é, portanto, mais uma lenda edificante de bem-aventurados e de deuses, mas a história de uns quantos seres humanos sujeitos a um poder contra o qual lutam, mas que não podem vencer. Jesus, que herdará as sandálias com que o pai tinha pisado o pó dos caminhos da terra, também herdará dele o sentimento trágico da responsabilidade e da culpa que nunca mais o abandonará, nem mesmo quando levantar a voz do alto da cruz: " Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez", por certo referindo-se ao Deus que o levara até ali, mas quem sabe se recordando ainda, nessa agonia derradeira, o seu pai autêntico, aquele que, na carne e no sangue, humanamente o gerara. Como se vê, o aprendiz já tinha feito uma larga viagem quando no seu herético Evangelho escreveu as últimas palavras do diálogo no templo entre Jesus e o escriba: "A culpa é um lobo que come o filho depois de ter devorado o pai, disse o escriba, Esse lobo de que falas já comeu o meu pai, disse Jesus, Então só falta que te devore a ti, E tu, na tua vida, foste comido, ou devorado, Não apenas comido e devorado, mas vomitado, respondeu o escriba".

Se o Imperador Carlos Magno não tivesse estabelecido no Norte da Alemanha um mosteiro, se esse mosteiro não tivesse dado origem à cidade de Münster, se Münster não tivesse querido assinalar os mil e duzentos anos da sua fundação com uma ópera sobre a pavorosa guerra que enfrentou no século XVI protestantes anabaptistas e católicos, o aprendiz não teria escrito a peça de teatro a que chamou In Nomine Dei. Uma vez mais, sem outro auxílio que a pequena luz da sua razão, o aprendiz teve de penetrar no obscuro labirinto das crenças religiosas, essas que com tanta facilidade levam os seres humanos a matar e a deixar-se matar. E o que viu foi novamente a máscara horrenda da intolerância, uma intolerância que em Münster atingiu o paroxismo demencial, uma intolerância que insultava a própria causa que ambas as partes proclamavam defender. Porque não se tratava de uma guerra em nome de dois deuses inimigos, mas de uma guerra em nome de um mesmo deus. Cegos pelas suas próprias crenças, os anabaptistas e os católicos de Münster não foram capazes de compreender a mais clara de todas as evidências: no dia do Juízo Final, quando uns e outros se apresentarem a receber o prémio ou o castigo que mereceram as suas acções na terra, Deus, se em suas decisões se rege por algo parecido à lógica humana terá de receber no paraíso tanto a uns como aos outros, pela simples razão de que uns e outros nele crêem. A terrível carnificina de Münster ensinou ao aprendiz que, ao contrário do que prometeram, as religiões nunca serviram para aproximar os homens, e que a mais absurda de todas as guerras é uma guerra religiosa, tendo em consideração que Deus não pode, ainda que o quisesse, declarar guerra a si próprio...

Cegos. O aprendiz pensou: "Estamos cegos", e sentou-se a escrever o Ensaio sobre a Cegueira para recordar a quem o viesse a ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante. Depois, aprendiz, como se tentasse exorcizar os monstros engendrados pela cegueira da razão, pôs-se a escrever a mais simples de todas as histórias: uma pessoa que vai à procura de outra pessoa apenas porque compreendeu que a vida não tem nada mais importante que pedir a um ser humano. O livro chama-se Todos os Nomes. Não escritos, todos os nossos nomes estão lá. Os nomes dos vivos e os nomes dos mortos.

Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiverem. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo.


sábado, 5 de junho de 2010

2ª Corrida Novas Oportunidades

Num Domingo cheio de sol, lá foi a família toda rumo a Belém. Participamos todos, uns nos 3km outros nos 10km, excepto o Tomichi, que ficou a assistir com a avó.

Dos 5.000 "atletas" a grande maioria fez a prova mais curta. Eu lá me arrastei para os 10km, não sem antes ouvir uma senhora dizer: "Vai continuar? Mas se já está a andar, a que horas vai cá chegar... "....eh eh...obrigadinho!!!..... A verdade é que os 3km lhe souberam a pouco, mas também lhe faltava ânimo para mais 7.

O Pedrote cruzou a meta aos 57 minutos e eu a servir de carro vassoura... Lá me arrastei até à meta, com a ajuda dos meus pequenotes que resolveram fazer-me companhia à chegada. Que bem que me soube!

Esta foto da "nossa" chegada retirei-a do site http://www.ammamagazine.com/ e vou comprar uma quantas fotos para guardar como recordação.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

Coincidências


A semana passada fui à feira do livro e no stand da Leya houve um livro que me chamou a atenção: "As profecias de Nostradamus" de Mario Reading. Lembro-me de o meu avô materno falar nestas profecias, que lhe renderam aliás muita popularidade lá na aldeia, daí o meu interesse imediato pelo assunto. Comecei a ler o livro e estou a achar um thriller interessante.

Esta semana, numa conversa casual com a minha mãe, ela contou-me que na ginástica lhe tinham falado sobre uma teoria de que o mundo ia acabar em 2012!!!... Dizia-me ela para eu ir ao google e escrever 2012 que me aparecia logo a informação sobre o fim do mundo. Bem mandada, lá fui ver o que é que me aparecia se escrevesse apenas "2012"... e lá estava a tal teoria, baseada no calendário Maya e no buraco negro, bla, bla, bla...como não sou nada fatalista, segui para bingo...

O elo de ligação destas duas situações banais: Ontem lembrei-me de ir à net pesquisar sobre a biografia de Nostradumus e não é que vou parar a um programa do canal Historia chamado "Nostradamus 2012", com a tal teoria sobre o fim do mundo... arre gaita...

Se calhar isto é o alinhamento dos planetas a avisar-me de algo...medo... 

Outra curiosidade: Entretanto, parece que já houve em Portugal uma manifestação contra o tal livro (http://asfolhasardem.wordpress.com/2009/12/14/e-eram-tao-novos/) feita por um grupo pertencente à Igreja Baptista. E pelos vistos o próprio Mario Reading leu a tradução desse tal blog, porque este acontecimento já consta do blog do autor ( http://blog.marioreading.com/?p=162 ), que faz uma analogia a Salman Rushdie.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

António Lobo Antunes

Há já algum tempo que não lia as crónicas de Lobo Antunes. Mas o meu filho tinha teste de Português e como ia sair "a crónica" e "o artigo de opinião" eu disse-lhe que se o professor fosse tão bom como ele dizia, tinha de escolher este magnífico escritor. 

Só não acerto o raio dos números que me vão tornar rica!!!!

Foi um prazer voltar a ler as crónicas que ele escreve para a revista Visão, de onde retirei esta:

Ó flor pensa com a raiz

Não é uma pessoa, é um monumento: um metro e noventa e quatro de altura, cento e dez quilos de peso, mãos gigantescas, uma força desmesurada, calça quarenta e oito, ocupa uma mesa inteira de garrafa de cerveja na mão, enche o tasco com a voz e ninguém se atreve a interrompê-lo. Não precisa de zangar-se: resolve qualquer problema com uma frase definitiva que me deixa de boca aberta de admiração. Primeiro exemplo: a empregada do tasco não havia maneira de lhe atinar com a conta e ele estimulou-lhe as capacidades mentais com uma ordem definitiva:
            - Ó flor pensa com a raiz.
            Segundo exemplo: um fulano entrou no dito tasco com os óculos escuros subidos até ao cabelo e vai ele:
            - Roubaste os óculos a um gajo mais alto do que tu?
            Terceiro exemplo: impacientou-se não sei com quem e preveniu
            - Olha que eu dou-te uma lambada que dás três voltas à cueca sem tocar no elástico.
            Quarto exemplo: andavam esses sujeitos da Câmara, vestidos de verde, a multar com entusiasmo, uma das minhas filhas hesitava em arrumar o automóvel num lugar proibido e ele sossegou-a, diante dos sujeitos verdes amedrontados:
            - Ponha-o aí à vontade, menina: por cima de mim só os aviões.
            E podia multiplicar os exemplos até ao infinito. Ultimamente anda deprimido: a mulher deixou-o e pediu o divórcio por causa de uma discussão sem importância. Não entende que uma discussãozeca acabe com um casamento de dezanove anos. Ainda por cima um problema de caracacá: que culpa tem ele da fragilidade da esposa:
            - Mal lhe rocei partiu logo os dois braços
            e isto numa surpresa sincera, a espalmar-se de inocência contra o peito:
            - Pela felicidade dos meus filhos que mal lhe rocei, senhor doutor.
            É camionista
            (se calhar, em vez de conduzir, leva o camião às costas)
            bruto e sensível ao mesmo tempo, de lágrima tão fácil quanto o murro, pronto a enternecer-se e a zangar-se, imprevisível na violência e na compaixão, orgulhoso e humilde, tão solitário no fundo, de uma agudeza instintiva e certeira que uma matreirice sem maldade acompanha. Quando pega na cerveja a garrafa desaparece-lhe na palma e o balcão cheio de gargalos vazios. Nunca o vi bêbado mas se calhar tão pouco sóbrio, navega numa zona intermédia, de álcool à vista. Agora, sem mulher nem filha
            - Tem treze anos, um metro e oitenta e dois e calça três números abaixo do meu
            passeia melancolias nos intervalos das viagens, sempre de fato e gravata, penteado, perfeito. Mostra-me fotografias da filha gigantesca, retiradas com dificuldade da confusão da carteira. Digo-lhe que é bonita, corrige
            - Um Ferrari
            e dissolve-se, imóvel, numa saudade comprida. A filha não terá apreciado os braços partidos da mãe, vá-se lá saber porquê, e recusa vê-lo, de modo que lhe ronda a escola à hora da saída, escondido numa árvore do outro lado do passeio. Mal a filha apanha o autocarro, sem dar por ele, volta a pé para o tasco a lutar contra uma humidade ácida que, de repente, lhe incomoda os olhos. No tasco as garrafas de cerveja triplicam e não se torna especialmente aconselhável falar-lhe. Por volta da vigésima oitava pede a conta, a empregada não acerta e lá vem o
            - Ó flor pensa com a raiz
            mas sem alma, cansado. Levanta-se devagar, vai-se embora sem cumprimentar ninguém e apesar de por cima dele só os aviões ei-lo indefeso e minúsculo, um trapinho à deriva que qualquer sopro empurra. Uma ocasião anunciou-me
            - A vida não é fácil, senhor doutor
            deu-me uma palmada nas costas que ele julgava cúmplice e me desarrumou os órgãos todos e sumiu-se deixando-me de fígado no peito e coração no umbigo: quase dei três voltas à cueca sem tocar no elástico. Nas últimas semanas não o tenho visto. Contaram-me que foi com o camião para o estrangeiro, o Luxemburgo ou assim, e esses trabalhos demoram muito tempo. Fingi que acreditei. Fingi tanto que acreditei de facto embora sabendo, no interior da alma, que era mentira. Ontem tive no jornal a prova disso ou pode ser que o jornal se referisse a outra pessoa. Vinha lá escrito que um camionista deixou o volante à beira de uma linha férrea, marchou uma centena de metros ao longo das calhas e abraçou-se
            (como quem abraça uma filha?)
            ao primeiro comboio que apareceu. O retrato no jornal é o dele mas talvez eu esteja enganado. De certeza que estou enganado: parecemo-nos tanto uns com os outros, não é?


Do livro O Manual dos Inquisidores não esqueço aquela parte em que a menina de boas famílias dá uma esmola ao "seu" pobre e lhe recomenda:

"- Agora veja lá não gaste isso tudo em aguardente

respondeu-me malcriadíssimo a virar e a revirar a moeda

- Claro que não menina claro que não fique descansada que vou direitinho ao stand e compro um Alfa Romeo»)."

 

sábado, 8 de maio de 2010

A alimentação pelo mundo fora

Recebi estas fotos por e-mail e coloco aqui porque é uma informação muito interessante.

Mostra o contrataste do poder de compra de uma família média de diversos países, onde o desperdício de uns alimentava uma família completa de outros

Mas evidencia também o tipo de alimentação dos diferentes países.

CONSUMO MÉDIO SEMANAL DE UMA FAMÍLIA 
EM DIVERSOS PAÍSES


Alemanha:  375.39 Euros or $500.07




EstadosUnidos$341.98


Itália (Sicília):  214.36 Euros or $260.11


México:  1,862.78 Mexican Pesos or $189.09 


Polónia:  582.48 Zlotys or $151.27 


Egipto: 387.85 Egyptian Pounds or $68.53



Equador: $31.55



Butão:  22493 ngultrum or $5.03

Chade :  685 CFA Francs or $1.23 
                                  

Vamos mas é poupar e ajudar quem precisa!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Sweet Sixteen

O meu Pedrote faz hoje 16 anos. Bela idade e grande dia! 

É a idade da emancipação, embora eu não o queira muito emancipado...mas também não me considero "mãe galinha", no sentido de impedir que as crianças cresçam. Pelo contrário, acho que devem arriscar, conhecer os seus limites e saborear cada dia. 



Como jovem responsável que é e porque tem um teste importante depois de amanhã, depois de jantarmos sem família e cantarmos os parabéns, vai de estudar uns minutitos, que o raio das médias são uma assombração!!!


O Benjamim da família (quando ele ler isto vai dizer "ó mãe, eu não me chamo Benjamim!"), perdeu na 6ª feira passada o seu primeiro dente de leite. Mais um marco no seu crescimento. E mais uma prenda para o ratinho oferecer...

A princesa foi, no Domingo, a uma festa de aniversário no KidZania e pelos vistos decidiu gastar uns KidZos no cabeleireiro, porque veio de lá com o cabelo parecido com o desta Polly.







sábado, 1 de maio de 2010

Angola

Hoje acordei com vontade de reler este poema.


Sou da mesma terra que tu

Quando te disse
Que era da terra selvagem
Do vento azul
E das praias morenas...
Do arco-íris das mil cores
Do Sol com fruta madura
E das madrugadas serenas....

Das cubatas e musseques
Das palmeiras com dendém
Das picadas com poeira
Da mandioca e fuba também...

Das mangas e fruta pinha
Do vermelho do café
Dos maboques e tamarindos
Dos cocos, do ai u'é...

Das praças no chão estendidas
Com missangas de mil cores
Os panos do Congo e os kimonos
Os aromas, os odores...

Dos chinelos no chão quente
Do andar descontraído
Da cerveja ao fim da tarde
Com o Sol adormecido...

Dos merenges e do batuque
Dos muquixes e dos mupungos
Dos imbondeiros e das gajajas
Da macanha e dos maiungos.

Da cana doce e do mamão
Da papaia e do caju...

Tu sorriste e sussurraste
"Sou da mesma terra que tu!"

Ana Paula Lavado, in, Um Beijo... Sem Nome

segunda-feira, 26 de abril de 2010

25 de Abril

Gostava que os meus filhos percebessem a importância desta data. 
Que entendessem que muito do que conquistámos nos últimos 36 anos foi graças à "Revolução dos Cravos" e ao inconformismo de alguns Portugueses.
Que reconhecessem também que muito do nosso actual atraso se ficou a dever ao "orgulhosamente sós" do anterior regime. E sobretudo que aprendam com os erros do passado e alarguem os seus horizontes (mas que não se "alarguem" de tal modo que os meus olhos deixem de os alcançar )...

Em homenagem à data, relembro o poema de António Gedeão, que a Odete Santos interpreta como ninguém!

Calçada de Carriche
 
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueija
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
António Gedeão, in 'Teatro do Mundo'


Para aligeirar o tema, deixo aqui um registo do dia de ontem, um dia bem passado a ver o meu pequenote a jogar futebol (ou a fingir que joga, porque em 3 jogos não ganharam nenhum e dos golos sofridos perdemos a conta).

Gosto tanto desta foto que tenho de a colocar aqui, porque mostra um dos raros momentos de convívio sereno do meu teenager com o pai, à sombra, a apreciar o jogo de futebol e a torcer pelo nosso Ronaldinho (ou então não..eh.eh...)!